ECONOMIA BRASILEIRA - Austeridade e câmbio na mira de Dilma / Claudia Safatle
Governo: Com salário mínimo de R$ 545, presidente quer indicar compromisso com controle dos gastos.
A presidente Dilma Rousseff vai demarcar, na primeira reunião ministerial, amanhã, as bases da política fiscal do seu governo para cumprir a meta de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) de superávit primário e anunciará que pretende criar em março o Conselho de Gestão em Competitividade, ligado à Presidência, para cuidar da eficiência do gasto público.
No primeiro embate concreto a respeito do gasto público - o valor do novo salário mínimo - ela quer manter uma postura austera: R$ 545. Dilma considera uma grande vitória o governo passado ter conseguido estabelecer uma regra de reajuste para o mínimo em acordo com as centrais sindicais. Avalia como um equívoco querer mudar de forma oportunista a atual regra de correção - pelo PIB de dois anos anteriores e IPCA dos últimos 12 meses - como se chegou a cogitar, para evitar que o reajuste do próximo ano seja de quase 14% por causa da exuberância do PIB de 2010. Com base nesses índices, o mínimo deste ano seria de cerca de R$ 543, Dilma concorda em arredondá-lo para R$ 545 e avisou a alguns de seus ministros que fará um enorme esforço para que o Congresso aprove um valor semelhante a esse para não usar o seu poder de veto.
Na reunião ministerial, Dilma vai avisar que não acatará indicações políticas para as agências reguladoras. Quer preencher as vagas com nomes que sejam especialistas e tenham comprovada experiência nas respectivas áreas. Ela pretende fortalecer as agências para que não sejam capturadas, tanto pelos interesses do mercado como pela força do poder público. A Petrobras tem que temer a avaliação da Agência Nacional do Petróleo, na visão da presidente, assim como a Aneel tem que ser capaz de aplicar multa a Furnas, se for esse o caso. Mas as agências continuarão fora das áreas de definições políticas e de planejamento setorial, funções que permanecerão com os respectivos ministérios.
Falará aos ministros, também, do compromisso de seu governo com a ética e com as práticas republicanas de gestão e vai deixar explícito que tomará as devidas providências quando houver acusações fundadas a participantes do governo.
Nos 11 dias de exercício da presidência, Dilma já expôs a cada um dos seus ministros o que quer. A Edison Lobão, de Minas e Energia, disse que vai olhar com muito cuidado a situação das empresas distribuidoras. Elas vão passar por um processo de restruturação e por uma disciplina de boa governança. Nenhuma das empresas controladas pela Eletrobras terá autonomia para agir de forma individual, disse a presidente. E a própria Eletrobras terá de passar por um novo padrão de governança para ser uma holding do porte da Petrobras.
Ela já cobrou de Lobão, também, a proposta de um marco regulatório para o setor de mineração. Disse a ele que não considera correto que um setor da importância e lucratividade no país como o mineral seja regulado por normas e leis dos anos 50. Dilma compartilhava com o ex-presidente Lula a avaliação que ele fazia, por exemplo, da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, que retira o minério de ferro do solo e o exporta sem agregar valor. Como exemplo do que considera um absurdo, cita vez ou outra o fato de os trilhos das ferrovias brasileiras serem importados. Esse problema está na raiz do relacionamento conflituoso do governo com o presidente da companhia, Roger Agnelli.
Sobre a questão cambial, uma pedra permanente no sapato do governo, a visão da presidente é clara: não pretende deixar que o Brasil pague uma conta indevida do processo de ajuste das economias americana e europeia. Dilma não vai tomar medidas "estapafúrdias ou mirabolantes" como controle cambial, conforme disse a um ministro. Mas quer que o Banco Central e os ministros da Fazenda e do Desenvolvimento façam o que for possível, dentro das práticas internacionais e de forma sistemática para evitar que o real continue se apreciando em relação ao dólar. Mais medidas macroprudenciais, como as anunciadas na semana passada pelo BC, poderão ser adotadas, desde que se preserve a essência do regime de taxas flutuantes. E novas providências devem ser preparadas para corrigir distorções que acabam por incentivar as importações em detrimento da produção nacional.
Dilma informou ao ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves, que não vai patrocinar uma reforma previdenciária. Aliás, seu governo não fará nenhuma reforma que tenha alto custo e dispersão de energia política se não trouxer uma melhoria de curto prazo à economia brasileira.
Assim, em vez de se empenhar na aprovação de um amplo projeto de reforma tributária, a presidente deve optar por três ou quatro projetos de mudança tributária mais fáceis de aprovação pelo Congresso e de repercussão importante para a economia, como o projeto de desoneração da folha de pagamento das empresas.
As primeiras ações da presidente na área fiscal serão as definições do corte de gastos do Orçamento para este ano. Não há, ainda, uma cifra estabelecida. Pode ser um corte na casa dos R$ 40 bilhões. No encontro de amanhã, Dilma vai estabelecer um prazo para que cada ministro faça uma avaliação dos gastos de sua pasta e diga onde pode cortar. Estabelecerá como palavra de ordem do seu governo "fazer mais com menos". Ela tem convicção de que há gastos excessivos que podem ser cortados e já mencionou os setores que devem ser objetos da tesoura com facilidade: viagens, aluguéis, reformas, carros.
Como na gestão de uma empresa, ela quer uma meta de redução de despesa por ministério, além do contingenciamento que o governo fará do Orçamento. Cada ministro terá ainda que informar à presidente o que vai fazer com os restos a pagar de sua pasta. À exceção das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), todos os demais gastos a serem pagos com os recursos da conta de restos a pagar podem ser objeto de revisão.
Para fazer mais com menos, será preciso perseguir a eficiência do gasto e esse será o objetivo do Conselho de Gestão. O empresário Jorge Gerdau Johannpeter fará parte desse conselho, cuja função será examinar com lupa a eficiência de cada real gasto com a saúde, a educação e outras áreas importantes do Orçamento.
Dilma sabe que não tem condições de fiscalizar cada pasta de seu governo, cada secretaria ou autarquia para ver se o dinheiro público está sendo bem aplicado ou, ainda, se está havendo corrupção no setor público federal. Mas depois de oito anos trabalhando no governo Lula, ela já tem plena ciência de onde estão os ralos por onde os recursos públicos escorrem e o que fazer para estabelecer mecanismos de controle. "Não quero a virtude dos homens, mas a das instituições", costuma dizer a presidente.
Impor um grau de eficiência ao gasto é, para a presidente, um dos desafios de sua gestão, ao lado do crescimento do investimento público. Uma das áreas carentes desse atributo é a de ciência e tecnologia. Se não houver uma mudança radical no padrão do gasto público nesse setor, não haverá inovação, segundo conversa que ela já teve com o ministro Aloizio Mercadante. Um exemplo das dificuldades enfrentadas é a falta de doutores e mestres no país, assim como a ausência de empresas que sejam receptoras da transferência de tecnologia.
Dilma quer buscar avanços também na área nuclear. O Brasil tem a terceira maior reserva de urânio e não faz o seu enriquecimento para abastecer as usinas de Angra. Ele vem todo de fora. A presidente tem a intenção de buscar parcerias privadas para a exploração do urânio e estimular a Eletronuclear a fazer o enriquecimento desse mineral. No enriquecimento, não há possibilidade de parcerias com o setor privado, iniciativa que a presidente considera uma loucura.
Na macroeconomia, as conversas nesses primeiros dias de governo são de que o crescimento do país - que deverá ser de 4,5% a 5% ao ano nos próximos anos - não produz crises porque é um crescimento que vem sendo sustentado pelo aumento do investimento. Dados ainda preliminares indicam que o investimento público já seria, em 2010, superior ao do período do governo Geisel, descontando o fato de que muitas empresas estatais foram privatizadas nos anos 90. Isso deve ter resultado numa taxa de investimento na casa dos 20% do PIB no ano passado, o que ocorreu simultaneamente a uma expansão do mercado de consumo de massa.
O país vai ter que trocar os pneus com o carro andando, disse a presidente em conversas recentes com ministros do seu governo. Ao mesmo tempo que cresce, terá que providenciar um ambicioso plano de educação para formar técnicos de nível médio, tecnólogos e profissionais de formação mais curta (em torno de 250 horas), como pedreiros, eletricistas e soldadores.
Ao mesmo tempo, garante que vai cumprir uma promessa central da campanha, que é a de erradicação da miséria, e criar portas de saída do Bolsa Família através da formação de mão de obra, entre outras iniciativas.
Na área dos direitos humanos, será criada a Comissão da Verdade estritamente nos termos da lei. Ou seja, caberá à comissão apurar as práticas de tortura durante o regime militar e o desaparecimento de presos políticos. Não haverá retaliações nem qualquer mudança na Lei da Anistia, até por que o Supremo Tribunal Federal já definiu que a anistia é recíproca.
Não há uma visão de que a política externa da presidente Dilma Rousseff trará mudanças substanciais em relação à gestão Lula. O que se admite, no novo governo, é que há uma enorme diferença entre o Brasil de 2003, devedor e dependente do Fundo Monetário Internacional, e o Brasil de 2011, detentor de quase US$ 300 bilhões em reservas cambiais. Há, também, uma grande diferença entre o que era o mundo desenvolvido antes e a crise que vive agora. Os Estados Unidos, por exemplo, aprenderam que não é possível achar que a relação entre dois países é unilateral. Mas se a visão dos EUA sobre o Brasil mudou, também a visão do país sobre os EUA se modificou. Ambos podem ter, hoje, um relacionamento altivo, avaliam colaboradores da presidente.
A respeito de outras questões de política externa, a presidente já adiantou que não será leniente com desrespeitos aos direitos humanos e considera impossível o Brasil não se envolver nos temas relacionados com os conflitos no Oriente Médio.
Ela procurou saber no Itamaraty sobre as razões pelas quais o governo do Irã proibiu toda a obra do escritor Paulo Coelho, em decisão recente. Ouviu da diplomacia, em resposta, que foi uma ação do presidente Mahmoud Ahmadinejad contra a editora dos livros e não contra a obra do autor brasileiro. Outra grande indagação é sobre qual será a relação de Dilma Rousseff com os movimentos sindicais, sobretudo tendo como parâmetro a convivência do ex-presidente Lula com as lideranças do mundo sindical. A perguntas dessa natureza, a presidente responde com tranquilidade: será uma convivência muito boa, até porque ao contrário do que ocorreu com Lula - que não teve apoio de todas as centrais na primeira eleição, em 2002 - com Dilma a adesão foi unânime.
Quanto aos demais movimentos sociais que, às vezes, criam constrangimentos para o governo, tais como as ameaças de invasão de propriedades que são feitas pelo MST, a presidente já fez uma reflexão sobre o assunto. Para ela, quem ameaça sabe que pode sofrer consequências.
Fonte: Valor Econômico (13/1/2011)
Thursday, January 13, 2011
COOPERACION DE BRASIL CON OTROS PAISES
COOPERAÇÃO - Em cinco anos, Brasil investiu R$ 2,89 bilhões em projetos de cooperação com outros países / Roberta Lopes
O Brasil investiu mais de R$ 2,89 bilhões em projetos de cooperação com outros países no período de 2005 a 2009. Segundo levantamento feito pelo Ipea em parceria com a Agência Brasileira de Cooperação.
ligada ao Ministério das Relações Exteriores, a maior parte dos investimentos (79%) foi direcionada para ações de organizações internacionais e bancos regionais.
O restante dos recursos coube às áreas de assistência humanitária, bolsas de estudo e cooperação técnica. Segundo o diretor da Agência Brasileira de Cooperação, ministro Marco Farani, o crescimento nos investimentos para projetos de cooperação é necessário, principalmente, para um país como o Brasil, que quer ser protagonista no plano internacional.
"Ajuda internacional, ajuda ao desenvolvimento, seja por meio de cooperação na área de educação, ciência, técnica, ajuda humanitária, cooperação financeira, que não está retratada no documento, vai ser cada vez mais, quase uma obrigação do governo", afirmou Farani.
Para ele, não se pode imaginar que um país que queira ter influência, ter um papel na construção do mundo, sem uma ação correspondente no plano técnico e prático.
A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde receberam R$ 1,38 bilhões no período de 2005 a 2009. O Brasil contribui ativamente para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), devido ao crescente número de refugiados que o país vem acolhendo e à atuação em assistência humanitária internacional, coordenada pelo organismo.
O Brasil também contribui com cerca de 70% dos recursos anuais do Fundo de Convergência Estrutural e de Fortalecimento Institucional do Mercosul (Focem). No período analisado, foram destinados ao fundo mais de R$ 430 milhões, o que representou 30% das contribuições para organismos internacionais. Criado em 2004, o Focem tem o objetivo de aumentar a competitividade dos quatro sócios do Mercado Comum do Sul - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Em bancos regionais de fomento, o Brasil investiu a fundo perdido mais de R$ 800 milhões em cinco anos. O dinheiro foi para as cotas de integralização de capital de fundos de bancos regionais dos quais o Brasil faz parte. As instituições das quais o Brasil é cotista - Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) - contribuem com o crescimento econômico e com a redução da pobreza nos países de baixa renda. O Brasil não recebe dinheiro desses fundos.
O estudo também analisou o investimento em assistência humanitária, que se deu principalmente em países da América Latina e do Caribe. Essas regiões ficaram com 76,27% da ajuda enviada diretamente, que representa, em valores, R$ 107, 81 milhões no período analisado. Entre os principais destinos da ajuda humanitária brasileira estão Cuba, o Haiti e os territórios palestinos que, juntos, receberam 53% do total, o que equivale a R$ 83,307 milhões.
A concessão de bolsas para alunos estrangeiros que estudam no Brasil ou no exterior representou cerca de 10% da cooperação brasileira (R$ 284,07 milhões). A maioria dessas bolsas foi para treinamento e capacitação. Cinquenta por cento delas são concedidas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O restante é dividido entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que destinou 28% dos recursos, e a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, que distribuiu 20%. Os 2% restantes ficaram a cargo do Ministério das Relações Exteriores.
Os recursos federais aplicados em projetos e programas de cooperação técnica, científica e tecnológica passaram de R$ 252,6 milhões. Em cooperação bilateral, o Brasil se concentrou em projetos de cooperação técnica horizontal que visam a mudanças estruturais na economia dos países e ao crescimento sustentável, de modo a garantir, igualmente, inclusão social e respeito ao meio ambiente. Esse tipo de cooperação está associado ao eixo Sul-Sul.
Outro tipo de cooperação é a da técnica triangular com países desenvolvidos e organismos internacionais. Os principais parceiros do Brasil na cooperação trilateral são o Japão, os Estados Unidos, a Alemanha, a França, o Canadá, a Argentina e a Espanha. As áreas de atuação vão desde o combate ao trabalho infantil, à aviação civil, educação, saúde, prevenção e controle da malária até a modernização de processos legislativos, administração pública, sociedade da informação, relações trabalhistas e reforço da infraestrutura.
O Brasil investiu mais de R$ 2,89 bilhões em projetos de cooperação com outros países no período de 2005 a 2009. Segundo levantamento feito pelo Ipea em parceria com a Agência Brasileira de Cooperação.
ligada ao Ministério das Relações Exteriores, a maior parte dos investimentos (79%) foi direcionada para ações de organizações internacionais e bancos regionais.
O restante dos recursos coube às áreas de assistência humanitária, bolsas de estudo e cooperação técnica. Segundo o diretor da Agência Brasileira de Cooperação, ministro Marco Farani, o crescimento nos investimentos para projetos de cooperação é necessário, principalmente, para um país como o Brasil, que quer ser protagonista no plano internacional.
"Ajuda internacional, ajuda ao desenvolvimento, seja por meio de cooperação na área de educação, ciência, técnica, ajuda humanitária, cooperação financeira, que não está retratada no documento, vai ser cada vez mais, quase uma obrigação do governo", afirmou Farani.
Para ele, não se pode imaginar que um país que queira ter influência, ter um papel na construção do mundo, sem uma ação correspondente no plano técnico e prático.
A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde receberam R$ 1,38 bilhões no período de 2005 a 2009. O Brasil contribui ativamente para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), devido ao crescente número de refugiados que o país vem acolhendo e à atuação em assistência humanitária internacional, coordenada pelo organismo.
O Brasil também contribui com cerca de 70% dos recursos anuais do Fundo de Convergência Estrutural e de Fortalecimento Institucional do Mercosul (Focem). No período analisado, foram destinados ao fundo mais de R$ 430 milhões, o que representou 30% das contribuições para organismos internacionais. Criado em 2004, o Focem tem o objetivo de aumentar a competitividade dos quatro sócios do Mercado Comum do Sul - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Em bancos regionais de fomento, o Brasil investiu a fundo perdido mais de R$ 800 milhões em cinco anos. O dinheiro foi para as cotas de integralização de capital de fundos de bancos regionais dos quais o Brasil faz parte. As instituições das quais o Brasil é cotista - Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) - contribuem com o crescimento econômico e com a redução da pobreza nos países de baixa renda. O Brasil não recebe dinheiro desses fundos.
O estudo também analisou o investimento em assistência humanitária, que se deu principalmente em países da América Latina e do Caribe. Essas regiões ficaram com 76,27% da ajuda enviada diretamente, que representa, em valores, R$ 107, 81 milhões no período analisado. Entre os principais destinos da ajuda humanitária brasileira estão Cuba, o Haiti e os territórios palestinos que, juntos, receberam 53% do total, o que equivale a R$ 83,307 milhões.
A concessão de bolsas para alunos estrangeiros que estudam no Brasil ou no exterior representou cerca de 10% da cooperação brasileira (R$ 284,07 milhões). A maioria dessas bolsas foi para treinamento e capacitação. Cinquenta por cento delas são concedidas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O restante é dividido entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que destinou 28% dos recursos, e a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, que distribuiu 20%. Os 2% restantes ficaram a cargo do Ministério das Relações Exteriores.
Os recursos federais aplicados em projetos e programas de cooperação técnica, científica e tecnológica passaram de R$ 252,6 milhões. Em cooperação bilateral, o Brasil se concentrou em projetos de cooperação técnica horizontal que visam a mudanças estruturais na economia dos países e ao crescimento sustentável, de modo a garantir, igualmente, inclusão social e respeito ao meio ambiente. Esse tipo de cooperação está associado ao eixo Sul-Sul.
Outro tipo de cooperação é a da técnica triangular com países desenvolvidos e organismos internacionais. Os principais parceiros do Brasil na cooperação trilateral são o Japão, os Estados Unidos, a Alemanha, a França, o Canadá, a Argentina e a Espanha. As áreas de atuação vão desde o combate ao trabalho infantil, à aviação civil, educação, saúde, prevenção e controle da malária até a modernização de processos legislativos, administração pública, sociedade da informação, relações trabalhistas e reforço da infraestrutura.
Sunday, January 9, 2011
PRIMEIRA MEDIDA CAMBIAL DE DILMA ROUSSEFF
São Paulo - A medida tomada ontem pelo Banco Central (BC) para tentar conter a queda do dólar ganhou a capa do jornal inglês Financial Times nesta sexta-feira. De acordo com a publicação, a ação do BC revela uma espécie de caráter do governo da presidente Dilma Rousseff, que vai defender a indústria nacional das flutuações cambiais.
“As medidas, destinadas a diminuir a apreciação do real, deu força às ameaças do novo governo da presidente Dilma Rousseff de que o Brasil vai atuar para proteger a competitividade da base da sua indústria das taxas de flutuações cambiais”, diz a reportagem.
O Financial Times salienta que o novo governo, em menos de uma semana, “não perdeu tempo” para falar sobre a valorização do real, que cresceu cerca de 40% nos últimos dois anos e “minou” a competitividade da indústria brasileira.
Em um outro desdobramento da reportagem, o jornal inglês afirma que o governo brasileiro foi o primeiro a iniciar uma onda de medidas para controlar a especulação nos mercados financeiros nos países emergentes.
“Investidores avisaram que as ações tomadas pelo Brasil, que foi o primeiro país no ano passado a alertar sobre os perigos de uma ‘Guerra Cambial’, devem ser possivelmente seguidas por outros mercados emergentes”, diz o texto.
A reportagem também salienta a ação de “muitos países”, como o Chile, que procuram evitar uma rápida entrada de capital estrangeiro, visando se defender da especulação financeira.
“As medidas, destinadas a diminuir a apreciação do real, deu força às ameaças do novo governo da presidente Dilma Rousseff de que o Brasil vai atuar para proteger a competitividade da base da sua indústria das taxas de flutuações cambiais”, diz a reportagem.
O Financial Times salienta que o novo governo, em menos de uma semana, “não perdeu tempo” para falar sobre a valorização do real, que cresceu cerca de 40% nos últimos dois anos e “minou” a competitividade da indústria brasileira.
Em um outro desdobramento da reportagem, o jornal inglês afirma que o governo brasileiro foi o primeiro a iniciar uma onda de medidas para controlar a especulação nos mercados financeiros nos países emergentes.
“Investidores avisaram que as ações tomadas pelo Brasil, que foi o primeiro país no ano passado a alertar sobre os perigos de uma ‘Guerra Cambial’, devem ser possivelmente seguidas por outros mercados emergentes”, diz o texto.
A reportagem também salienta a ação de “muitos países”, como o Chile, que procuram evitar uma rápida entrada de capital estrangeiro, visando se defender da especulação financeira.
Wednesday, January 5, 2011
AVANCO DA ECONOMIA BRASILEIRA - EM RELACAO AS PATENTES
Brasil fica para trás na corrida por patente, apesar de avanço na economia
Publicidade ,CAMILA FUSCO ,DE SÃO PAULO
Dono de conquistas importantes nos últimos anos -que vão de controle da inflação e melhor distribuição de renda à capacidade de recuperação no período pós-crise-, o Brasil ainda patina para provar a capacidade criativa de sua indústria, item considerado básico para o crescimento futuro.
Números da Ompi (Organização Mundial de Propriedade Intelectual), que reúne os pedidos de patente feitos por empresas de todas as partes do mundo, mostram que o índice de inovação brasileiro mal conseguiu acompanhar o avanço da economia na última década.
Enquanto o PIB cresceu 158% desde 2000, para mais de R$ 3 trilhões, e fez o país representar 2,7% da economia mundial, em patentes o Brasil não passa de 0,32% dos pedidos internacionais.
Em contrapartida, países asiáticos, principalmente, tiveram avanços proporcionais nas duas frentes.
A China viu seu PIB quadruplicar entre 2000 e 2009, para US$ 4,98 trilhões, e, ao mesmo tempo, passou de 0,84% de participação nas patentes globais para 7,3%.
Já a Coreia do Sul apresentou crescimento de 56% em sua economia e já se sustenta com expressivos 5,17% de participação em patentes.
ACOMODAÇÃO
"Como somos ricos em recursos naturais, nunca precisamos inovar para sobreviver, diferentemente de países asiáticos. Existe uma espécie de acomodação que gerou um aspecto cultural crônico difícil de mudar", diz Paulo Feldmann, professor da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP).
Entre os pedidos de patentes de empresas apresentados ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual), que registra a proteção só no país, há crescimento gradual, mas ainda lento. Em 2010 foram 30 mil pedidos registrados e 3.620 patentes concedidas.
"Falta incentivo para a transferência de tecnologia e esse comportamento atrasa a chegada das inovações ao mercado", diz Jorge Ávila, presidente do Inpi.
O Brasil representa hoje 2% da produção mundial de artigos científicos e ocupa a 13ª posição do ranking de países que mais publicam materiais do gênero.
Segundo os especialistas, embora o número seja positivo, o país tem dificuldade em converter o aprendizado acadêmico em dinheiro.
JARARACA
Um dos maiores exemplos de desperdício da inovação que vem da universidade aconteceu no fim dos anos 1960, quando o pesquisador brasileiro Sérgio Ferreira, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, descobriu o potencial do veneno de jararaca para remédios contra hipertensão.
Após a descoberta, o professor publicou artigos científicos em revistas internacionais, mas o potencial econômico da invenção não veio para o país.
Anos depois, o laboratório norte-americano Bristol Myers-Squibb patenteou a técnica do princípio ativo e hoje comercializa o medicamento Capoten.
"Os projetos de pesquisa das academias são voltados às carreiras dos professores, e não ao mercado", diz Paulo Feldmann, da FEA.
Aos 61 anos, Feldmann já trabalhou em dez empresas e hoje, além de lecionar, dirige a Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria, o que permitiu estreitar o contato entre universidade e empresas.
"O preconceito de interação contribui para que a inovação de dentro da faculdade não vire negócio."
Publicidade ,CAMILA FUSCO ,DE SÃO PAULO
Dono de conquistas importantes nos últimos anos -que vão de controle da inflação e melhor distribuição de renda à capacidade de recuperação no período pós-crise-, o Brasil ainda patina para provar a capacidade criativa de sua indústria, item considerado básico para o crescimento futuro.
Números da Ompi (Organização Mundial de Propriedade Intelectual), que reúne os pedidos de patente feitos por empresas de todas as partes do mundo, mostram que o índice de inovação brasileiro mal conseguiu acompanhar o avanço da economia na última década.
Enquanto o PIB cresceu 158% desde 2000, para mais de R$ 3 trilhões, e fez o país representar 2,7% da economia mundial, em patentes o Brasil não passa de 0,32% dos pedidos internacionais.
Em contrapartida, países asiáticos, principalmente, tiveram avanços proporcionais nas duas frentes.
A China viu seu PIB quadruplicar entre 2000 e 2009, para US$ 4,98 trilhões, e, ao mesmo tempo, passou de 0,84% de participação nas patentes globais para 7,3%.
Já a Coreia do Sul apresentou crescimento de 56% em sua economia e já se sustenta com expressivos 5,17% de participação em patentes.
ACOMODAÇÃO
"Como somos ricos em recursos naturais, nunca precisamos inovar para sobreviver, diferentemente de países asiáticos. Existe uma espécie de acomodação que gerou um aspecto cultural crônico difícil de mudar", diz Paulo Feldmann, professor da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP).
Entre os pedidos de patentes de empresas apresentados ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual), que registra a proteção só no país, há crescimento gradual, mas ainda lento. Em 2010 foram 30 mil pedidos registrados e 3.620 patentes concedidas.
"Falta incentivo para a transferência de tecnologia e esse comportamento atrasa a chegada das inovações ao mercado", diz Jorge Ávila, presidente do Inpi.
O Brasil representa hoje 2% da produção mundial de artigos científicos e ocupa a 13ª posição do ranking de países que mais publicam materiais do gênero.
Segundo os especialistas, embora o número seja positivo, o país tem dificuldade em converter o aprendizado acadêmico em dinheiro.
JARARACA
Um dos maiores exemplos de desperdício da inovação que vem da universidade aconteceu no fim dos anos 1960, quando o pesquisador brasileiro Sérgio Ferreira, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, descobriu o potencial do veneno de jararaca para remédios contra hipertensão.
Após a descoberta, o professor publicou artigos científicos em revistas internacionais, mas o potencial econômico da invenção não veio para o país.
Anos depois, o laboratório norte-americano Bristol Myers-Squibb patenteou a técnica do princípio ativo e hoje comercializa o medicamento Capoten.
"Os projetos de pesquisa das academias são voltados às carreiras dos professores, e não ao mercado", diz Paulo Feldmann, da FEA.
Aos 61 anos, Feldmann já trabalhou em dez empresas e hoje, além de lecionar, dirige a Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria, o que permitiu estreitar o contato entre universidade e empresas.
"O preconceito de interação contribui para que a inovação de dentro da faculdade não vire negócio."
Sunday, January 2, 2011
O FUTURO DO BRASIL
Para presidente do Bradesco, vai valer a pena viver no Brasil
Vicente Nunes
Publicação: 02/01/2011 08:49 Atualização:
O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, está convencido de que o Brasil finalmente rompeu com o atraso e segue na direção correta para se tornar uma das maiores potências econômicas do mundo. A partir deste ano, e pelos próximos 20, o país viverá o que os economistas chamam de bônus produtivo — a maioria da população terá entre 15 e 64 anos, estando apta, portanto, para construir as riquezas que sustentarão as futuras gerações. “A vida valerá mais a pena ser vivida no Brasil. Seremos uma Nação melhor para trabalhar, formar família, educar os filhos e conviver com os amigos, na esperança de ascensão social”, diz.
Diante desse quadro, a presidente Dilma Rousseff assume o posto com a missão de não deixar escapar uma só das oportunidades que estão escancaradas para o Brasil. Na avaliação de Trabuco, o setor privado será o grande motor da economia. Mas o governo terá o papel relevante de coordenar as expectativas e, sobretudo, liderar os projetos de infraestrutura para a modernização do país. “A infraestrutura brasileira está dimensionada para uma demanda e um tamanho de PIB (Produto Interno Bruto) completamente diferentes dos que estão contratados para o curto prazo”, afirma.
Todo esse quadro positivo só será realidade, contudo, com o controle da inflação, a responsabilidade fiscal e o câmbio flutuante. “São os mais pobres os que mais se beneficiam do controle de preços. E o governo da presidente Dilma herdou um contigente de milhões de novos consumidores de todos os tipos de produtos e serviços. É uma classe média vigorosa que está se formando”, ressalta Trabuco.
Ele diz acreditar que o Brasil lidará bem com as dores do crescimento. “Prefiro essas dores do que as da recessão. Será um privilégio para a nossa geração vivenciar esse salto brasileiro”, enfatiza. O presidente do Bradesco prega, porém, mudanças no sistema público de Previdência. E garante que os bancos estão preparados para conviver com juros reais (descontada a inflação) de 2% ao ano a partir de 2014, como promete Dilma Rousseff. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista que Trabuco concedeu ao Correio, encerrando a série de reportagens iniciada há uma semana, que discutiu o que será o Brasil das próximas duas décadas.
O Brasil viverá, nos próximos 20 anos, o seu auge demográfico, com a população produtiva sendo a maioria dos habitantes. O que se pode esperar desse país?
Desenvolvimento econômico e desenvolvimento social, um puxando o outro. Será um privilégio para a nossa geração vivenciar esse salto brasileiro. Com mais gente produzindo que inativos, teremos duas décadas de números e estatísticas inéditas. Traduzindo isso no que interessa às pessoas: a vida vai valer mais a pena de ser vivida no Brasil. Seremos uma Nação melhor para trabalhar, formar família, educar os filhos e conviver com os amigos, na esperança de ascensão social. Até agora, tivemos um forte processo de mobilidade social, com o ingresso de 30 milhões na faixa de consumo. Daqui por diante, teremos adicionado o fenômeno da janela demográfica. Num cenário de economia estabilizada e em crescimento, essa soma indica mais emprego, renda e consumo. Em síntese, mais qualidade de vida. Esse processo de mais renda e melhores oportunidades de emprego rende fruto em seu conjunto, inclusive para as contas da Previdência Social.
A presidente Dilma Rousseff aposta em um Estado forte. Mas o motor da economia é o setor privado. O senhor acredita na volta do governo-empresário? Que impacto isso pode ter no setor rodutivo e no futuro do país?
O Brasil precisa de todos. Não há contradição. Precisamos do Estado e do setor privado, convivendo no sentido do crescimento com um olhar no social. O exemplo prático disso aconteceu na última crise mundial. As exigências levaram ao aumento da participação do governo na economia. Foi importante como contraponto, criar um ambiente anticíclico. Com essa atitude, nos diferenciamos do contexto global. Entramos agora em outra fase. Acredito que o governo tem sinalizado com atos e palavras. Com o ambiente de confiança, poderá voltar ao seu eixo natural. O setor privado reconquista o seu espaço, investindo em novos projetos, sendo aí o motor do crescimento. Nós, bancos privados, públicos e estrangeiros, temos o mesmo papel, o de parceiros do desenvolvimento. Viabilizamos os recursos para o investimento das empresas e o consumo das famílias. O Estado tem foco na coordenação das grandes obras de modernização e ampliação da infraestrutura. Há tarefas gigantescas tanto para o setor público quanto para o privado.
O setor financeiro sempre é apontado como vilão por seus lucros espetaculares, graças, sobretudo, às maiores taxas de juros do mundo. Os bancos brasileiros estão preparados para conviver com juros mais baixos, com taxa real de 2% ao ano como promete a presidente para 2014?
A lucratividade do setor acompanha a melhora geral da economia. Quando a estabilidade econômica colocou as coisas nos eixos, houve aumento da concorrência e mais regulação da atividade. Isso quer dizer que os bancos trataram de se tornar mais eficientes e ganhar com o aumento do volume dos negócios. A curva do juro é descendente há anos e mantivemos a performance. Isso se explica um pouco pela consolidação pela qual passou o setor, mas principalmente pela mobilidade social. A ascensão social das classes D e E formou uma classe média que se incorporou ao universo de clientes bancários. Em 2000, havia 63 milhões de contas correntes no Brasil. Hoje, são mais de 100 milhões. Um salto expressivo. O ciclo econômico que vivemos recuperou negócios tipicamente bancários que estavam em desuso. O crédito para a compra de carros e da casa própria voltou, com alongamento de prazos e controle de risco. Ter lucro não torna ninguém um vilão, é resultado de trabalho e decisões estratégicas acertadas. Apoiamos sem restrições a intenção declarada do governo de reduzir o juro real. Estamos preparados para isso. Vai ser bom, pois ampliará o volume de crédito.
As perspectivas são de que, nas próximas duas décadas, o número de correntistas bancários dobre. Como se dará esse processo? Que tipos de serviços os ancos oferecerão?
Essa é a situação e os bancos sabem disso. Nosso desafio é conhecer essas pessoas que estão chegando, seus valores, descobrir os interesses e demandas. Queremos não só conquistá-las, mas mantê-las conosco. Estamos nos instalando em grandes comunidades desprovidas de banco.
Junto com o auge produtivo da população, virá um Brasil mais velho. O senhor acredita em uma reforma da Previdência que ampare, de forma digna, as futuras gerações? Como o sistema financeiro contribuirá para oferecer segurança aos trabalhadores depois da aposentadoria?
A questão da Previdência pública é uma questão de direitos. As pessoas trabalham e contribuem para, na aposentadoria, garantir uma vida digna. O problema é universal. De tempos em tempos, os países precisam reformar seus modelos de cálculo, pois a conta não bate. A população vive mais, a medicina avança e chega um momento em que há mais pessoas recebendo benefícios do que contribuindo. Trava-se então uma espécie de corrida. Sou otimista, vamos construir algo que seja justo. O Brasil tem essa janela demográfica que ajuda. São mais pessoas contribuindo do que recebendo benefícios. É preciso pensar numa nova Previdência escolhendo o caminho mais fácil, não mexendo, por exemplo, em direitos adquiridos. Não acredito em privatização da Previdência. É preciso uma Previdência Social, mas que se complementa com uma previdência privada individual ou entre patrões e empregados.
O que, na sua avaliação, é preciso fazer para que a mobilidade social vivida pelo Brasil — a classe média incorporou uma Espanha nos últimos seis anos — não seja interrompida? O Brasil realmente se tornará um país desenvolvido, com menos disparidades sociais?
Manter a estabilidade econômica como valor fundamental da agenda de todos os brasileiros é o primeiro passo. Os maiores beneficiários da inflação baixa são os mais pobres. A aposta no crescimento econômico é virtuosa. Entre estabilidade e crescimento, devemos ficar com os dois. É um processo complexo e difícil, pode enviar sinais trocados pelas limitações econômicas e administração da escassez. Mas não podemos pensar de outra forma. A meta de inflação deve ser cumprida. Compatibilizar o crescimento e programas de transferência de renda é crucial.
As dores do crescimento são visíveis, a ponto de o país se ressentir de mão de obra qualificada. É possível fazer uma revolução na educação? Qual o caminho a ser seguido pelo país?
As dores do crescimento são como dores do parto, em seguida vêm alegrias. Prefiro essas às da recessão, que são as dores da perda. Há um déficit na formação educacional e de qualificação profissional da população. Do ponto de vista da economia, puxa para baixo a produtividade, e tolhe a iniciativa individual e a criatividade. Por um bom tempo, o jovem se formava e não tinha emprego para ele. Hoje, falta mão de obra qualificada. Vivemos um novo cenário, estimulante, dinâmico. Porém, não há milagre. As grandes empresas resolvem o problema investindo com intensidade em programas de treinamento. O setor público também está fazendo o mesmo. O conflito é o tempo. Precisamos para já, mas a qualificação profissional leva tempo.
A presidente promete priorizar os investimentos em infra-estrutura. De que forma o sistema financeiro vai viabilizar as obras para tirar o atraso dos portos, aeroportos, rodovias, ferrovias?
A infraestrutura brasileira está dimensionada para uma demanda e um tamanho de PIB completamente diferentes das que estão contratadas para o curto prazo. A prioridade aos investimentos é absolutamente correta. O governo da presidente Dilma herdou um contingente de milhões de novos consumidores de todo tipo de produto e serviço. É uma classe média vigorosa que está se formando. A opção das parcerias público-privadas, sem fórmulas mágicas, é excelente. Uma das principais vocações do sistema financeiro é unir os elos da economia, juntar interesses que estão espalhados, fazer a convergência entre investidores e tomadores de crédito. Gosto de lembrar que o Brasil sempre teve energia abundante, recursos minerais e espaço territorial de sobra. Agora, tem também estabilidade econômica e a formação de uma classe média de milhões de pessoas e o surgimento de milhares de novos empreendedores.
Vicente Nunes
Publicação: 02/01/2011 08:49 Atualização:
O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, está convencido de que o Brasil finalmente rompeu com o atraso e segue na direção correta para se tornar uma das maiores potências econômicas do mundo. A partir deste ano, e pelos próximos 20, o país viverá o que os economistas chamam de bônus produtivo — a maioria da população terá entre 15 e 64 anos, estando apta, portanto, para construir as riquezas que sustentarão as futuras gerações. “A vida valerá mais a pena ser vivida no Brasil. Seremos uma Nação melhor para trabalhar, formar família, educar os filhos e conviver com os amigos, na esperança de ascensão social”, diz.
Diante desse quadro, a presidente Dilma Rousseff assume o posto com a missão de não deixar escapar uma só das oportunidades que estão escancaradas para o Brasil. Na avaliação de Trabuco, o setor privado será o grande motor da economia. Mas o governo terá o papel relevante de coordenar as expectativas e, sobretudo, liderar os projetos de infraestrutura para a modernização do país. “A infraestrutura brasileira está dimensionada para uma demanda e um tamanho de PIB (Produto Interno Bruto) completamente diferentes dos que estão contratados para o curto prazo”, afirma.
Todo esse quadro positivo só será realidade, contudo, com o controle da inflação, a responsabilidade fiscal e o câmbio flutuante. “São os mais pobres os que mais se beneficiam do controle de preços. E o governo da presidente Dilma herdou um contigente de milhões de novos consumidores de todos os tipos de produtos e serviços. É uma classe média vigorosa que está se formando”, ressalta Trabuco.
Ele diz acreditar que o Brasil lidará bem com as dores do crescimento. “Prefiro essas dores do que as da recessão. Será um privilégio para a nossa geração vivenciar esse salto brasileiro”, enfatiza. O presidente do Bradesco prega, porém, mudanças no sistema público de Previdência. E garante que os bancos estão preparados para conviver com juros reais (descontada a inflação) de 2% ao ano a partir de 2014, como promete Dilma Rousseff. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista que Trabuco concedeu ao Correio, encerrando a série de reportagens iniciada há uma semana, que discutiu o que será o Brasil das próximas duas décadas.
O Brasil viverá, nos próximos 20 anos, o seu auge demográfico, com a população produtiva sendo a maioria dos habitantes. O que se pode esperar desse país?
Desenvolvimento econômico e desenvolvimento social, um puxando o outro. Será um privilégio para a nossa geração vivenciar esse salto brasileiro. Com mais gente produzindo que inativos, teremos duas décadas de números e estatísticas inéditas. Traduzindo isso no que interessa às pessoas: a vida vai valer mais a pena de ser vivida no Brasil. Seremos uma Nação melhor para trabalhar, formar família, educar os filhos e conviver com os amigos, na esperança de ascensão social. Até agora, tivemos um forte processo de mobilidade social, com o ingresso de 30 milhões na faixa de consumo. Daqui por diante, teremos adicionado o fenômeno da janela demográfica. Num cenário de economia estabilizada e em crescimento, essa soma indica mais emprego, renda e consumo. Em síntese, mais qualidade de vida. Esse processo de mais renda e melhores oportunidades de emprego rende fruto em seu conjunto, inclusive para as contas da Previdência Social.
A presidente Dilma Rousseff aposta em um Estado forte. Mas o motor da economia é o setor privado. O senhor acredita na volta do governo-empresário? Que impacto isso pode ter no setor rodutivo e no futuro do país?
O Brasil precisa de todos. Não há contradição. Precisamos do Estado e do setor privado, convivendo no sentido do crescimento com um olhar no social. O exemplo prático disso aconteceu na última crise mundial. As exigências levaram ao aumento da participação do governo na economia. Foi importante como contraponto, criar um ambiente anticíclico. Com essa atitude, nos diferenciamos do contexto global. Entramos agora em outra fase. Acredito que o governo tem sinalizado com atos e palavras. Com o ambiente de confiança, poderá voltar ao seu eixo natural. O setor privado reconquista o seu espaço, investindo em novos projetos, sendo aí o motor do crescimento. Nós, bancos privados, públicos e estrangeiros, temos o mesmo papel, o de parceiros do desenvolvimento. Viabilizamos os recursos para o investimento das empresas e o consumo das famílias. O Estado tem foco na coordenação das grandes obras de modernização e ampliação da infraestrutura. Há tarefas gigantescas tanto para o setor público quanto para o privado.
O setor financeiro sempre é apontado como vilão por seus lucros espetaculares, graças, sobretudo, às maiores taxas de juros do mundo. Os bancos brasileiros estão preparados para conviver com juros mais baixos, com taxa real de 2% ao ano como promete a presidente para 2014?
A lucratividade do setor acompanha a melhora geral da economia. Quando a estabilidade econômica colocou as coisas nos eixos, houve aumento da concorrência e mais regulação da atividade. Isso quer dizer que os bancos trataram de se tornar mais eficientes e ganhar com o aumento do volume dos negócios. A curva do juro é descendente há anos e mantivemos a performance. Isso se explica um pouco pela consolidação pela qual passou o setor, mas principalmente pela mobilidade social. A ascensão social das classes D e E formou uma classe média que se incorporou ao universo de clientes bancários. Em 2000, havia 63 milhões de contas correntes no Brasil. Hoje, são mais de 100 milhões. Um salto expressivo. O ciclo econômico que vivemos recuperou negócios tipicamente bancários que estavam em desuso. O crédito para a compra de carros e da casa própria voltou, com alongamento de prazos e controle de risco. Ter lucro não torna ninguém um vilão, é resultado de trabalho e decisões estratégicas acertadas. Apoiamos sem restrições a intenção declarada do governo de reduzir o juro real. Estamos preparados para isso. Vai ser bom, pois ampliará o volume de crédito.
As perspectivas são de que, nas próximas duas décadas, o número de correntistas bancários dobre. Como se dará esse processo? Que tipos de serviços os ancos oferecerão?
Essa é a situação e os bancos sabem disso. Nosso desafio é conhecer essas pessoas que estão chegando, seus valores, descobrir os interesses e demandas. Queremos não só conquistá-las, mas mantê-las conosco. Estamos nos instalando em grandes comunidades desprovidas de banco.
Junto com o auge produtivo da população, virá um Brasil mais velho. O senhor acredita em uma reforma da Previdência que ampare, de forma digna, as futuras gerações? Como o sistema financeiro contribuirá para oferecer segurança aos trabalhadores depois da aposentadoria?
A questão da Previdência pública é uma questão de direitos. As pessoas trabalham e contribuem para, na aposentadoria, garantir uma vida digna. O problema é universal. De tempos em tempos, os países precisam reformar seus modelos de cálculo, pois a conta não bate. A população vive mais, a medicina avança e chega um momento em que há mais pessoas recebendo benefícios do que contribuindo. Trava-se então uma espécie de corrida. Sou otimista, vamos construir algo que seja justo. O Brasil tem essa janela demográfica que ajuda. São mais pessoas contribuindo do que recebendo benefícios. É preciso pensar numa nova Previdência escolhendo o caminho mais fácil, não mexendo, por exemplo, em direitos adquiridos. Não acredito em privatização da Previdência. É preciso uma Previdência Social, mas que se complementa com uma previdência privada individual ou entre patrões e empregados.
O que, na sua avaliação, é preciso fazer para que a mobilidade social vivida pelo Brasil — a classe média incorporou uma Espanha nos últimos seis anos — não seja interrompida? O Brasil realmente se tornará um país desenvolvido, com menos disparidades sociais?
Manter a estabilidade econômica como valor fundamental da agenda de todos os brasileiros é o primeiro passo. Os maiores beneficiários da inflação baixa são os mais pobres. A aposta no crescimento econômico é virtuosa. Entre estabilidade e crescimento, devemos ficar com os dois. É um processo complexo e difícil, pode enviar sinais trocados pelas limitações econômicas e administração da escassez. Mas não podemos pensar de outra forma. A meta de inflação deve ser cumprida. Compatibilizar o crescimento e programas de transferência de renda é crucial.
As dores do crescimento são visíveis, a ponto de o país se ressentir de mão de obra qualificada. É possível fazer uma revolução na educação? Qual o caminho a ser seguido pelo país?
As dores do crescimento são como dores do parto, em seguida vêm alegrias. Prefiro essas às da recessão, que são as dores da perda. Há um déficit na formação educacional e de qualificação profissional da população. Do ponto de vista da economia, puxa para baixo a produtividade, e tolhe a iniciativa individual e a criatividade. Por um bom tempo, o jovem se formava e não tinha emprego para ele. Hoje, falta mão de obra qualificada. Vivemos um novo cenário, estimulante, dinâmico. Porém, não há milagre. As grandes empresas resolvem o problema investindo com intensidade em programas de treinamento. O setor público também está fazendo o mesmo. O conflito é o tempo. Precisamos para já, mas a qualificação profissional leva tempo.
A presidente promete priorizar os investimentos em infra-estrutura. De que forma o sistema financeiro vai viabilizar as obras para tirar o atraso dos portos, aeroportos, rodovias, ferrovias?
A infraestrutura brasileira está dimensionada para uma demanda e um tamanho de PIB completamente diferentes das que estão contratadas para o curto prazo. A prioridade aos investimentos é absolutamente correta. O governo da presidente Dilma herdou um contingente de milhões de novos consumidores de todo tipo de produto e serviço. É uma classe média vigorosa que está se formando. A opção das parcerias público-privadas, sem fórmulas mágicas, é excelente. Uma das principais vocações do sistema financeiro é unir os elos da economia, juntar interesses que estão espalhados, fazer a convergência entre investidores e tomadores de crédito. Gosto de lembrar que o Brasil sempre teve energia abundante, recursos minerais e espaço territorial de sobra. Agora, tem também estabilidade econômica e a formação de uma classe média de milhões de pessoas e o surgimento de milhares de novos empreendedores.
Sunday, May 16, 2010
CAMBIO MATA O COMERCIO EXTERIOR BRASILERO . PRIMER TRIMESTRE DE 2010
RUBENS RICUPERO
Câmbio mata
Parecem estar contados os dias de saldo comercial; é bom apertar os cintos para o mergulho na montanha-russa.
O CÂMBIO já está estrangulando o setor de maior tecnologia e valor agregado de nossa indústria (eletrônica, farmacêutica, química, automobilística e maquinaria). Apenas nos três primeiros meses do ano esse setor teve o chocante deficit de US$ 13,6 bilhões, maior do que em todo o ano de 2006 e superior em 42% ao do mesmo período do ano passado.
Os dados do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) servem de necrológio à indústria brasileira, mostrando que o câmbio continua sendo tão mortal como no tempo da advertência de Mário Henrique Simonsen. A tendência está colada à apreciação do real e ao declínio do saldo comercial em geral, que em abril foi o menor em oito anos, tendo caído nada menos que 65% em comparação ao de abril de 2009.
Aliás, parecem estar contados os dias de saldo comercial, uma vez que as importações estão crescendo em ritmo quase duas vezes maior do que as exportações (65% ante 23%).
É bom apertar os cintos para o mergulho na montanha-russa, já que o fim do saldo comercial elimina o único fator que compensava em parte o aumento vertiginoso de todos os demais componentes do deficit em conta-corrente.
Essa é a cara oculta da atual euforia com o crescimento puxado somente pelo consumo do governo e das pessoas, com baixa poupança e pouco investimento. Cada vez se depende mais de recursos de fora para cobrir o buraco, e a desindustrialização precoce entra no segundo estágio de agravamento. No primeiro, as importações substituem os componentes locais, mas o produto continua a ser montado no Brasil; no segundo, importa-se o produto pronto e as indústrias se tornam meras distribuidoras e prestadoras de assistência.
A situação tende a piorar com as elevações de juro que o Banco Central terá de realizar para segurar o superaquecimento do consumo. As previsões de que no fim do ano o dólar se aproxime de R$ 1,60 ou menos vão sacrificar ainda mais os manufaturados. Até agora a valorização dos primários pela demanda da China tem atenuado a deterioração do comércio exterior. É um erro, porém, imaginar que as commodities aguentam qualquer valorização da moeda.
Tenho idade bastante para me lembrar do tempo em que quase todos os produtos primários brasileiros eram gravosos, isto é, seu custo de produção superava, devido ao câmbio, o preço internacional.
Quando as cotações também caem, como sucede no momento com muitos produtos agrícolas, a renda do campo sofre duplo golpe: preço e câmbio.
De onde poderá vir o socorro às contas externas se o panorama negativo se acentuar, como vem acontecendo há anos? Do petróleo? É o que já ocorre, como mostra Raquel Landim em perceptivo comentário em "O Estado de S. Paulo" (4/5/10).
Nele se aprende que o petróleo passou a ser o principal item das exportações, quase 10% do total! Sem ele, as vendas externas cresceram apenas 16%, agravando o descompasso com o aumento das importações.
Está aí um bom tema para o debate eleitoral. Em vez da discussão pueril sobre qual governo foi melhor, por que não debater como evitar que o Brasil vire uma grande Venezuela, onde 96% das exportações vêm das commodities? Sem mexer no câmbio, como melhorar a competitividade? Com esses juros? Com a infraestrutura em pedaços? Com carga tributária o dobro da da China? Com a redução da semana de trabalho?
RUBENS RICUPERO, 73, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).
Câmbio mata
Parecem estar contados os dias de saldo comercial; é bom apertar os cintos para o mergulho na montanha-russa.
O CÂMBIO já está estrangulando o setor de maior tecnologia e valor agregado de nossa indústria (eletrônica, farmacêutica, química, automobilística e maquinaria). Apenas nos três primeiros meses do ano esse setor teve o chocante deficit de US$ 13,6 bilhões, maior do que em todo o ano de 2006 e superior em 42% ao do mesmo período do ano passado.
Os dados do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) servem de necrológio à indústria brasileira, mostrando que o câmbio continua sendo tão mortal como no tempo da advertência de Mário Henrique Simonsen. A tendência está colada à apreciação do real e ao declínio do saldo comercial em geral, que em abril foi o menor em oito anos, tendo caído nada menos que 65% em comparação ao de abril de 2009.
Aliás, parecem estar contados os dias de saldo comercial, uma vez que as importações estão crescendo em ritmo quase duas vezes maior do que as exportações (65% ante 23%).
É bom apertar os cintos para o mergulho na montanha-russa, já que o fim do saldo comercial elimina o único fator que compensava em parte o aumento vertiginoso de todos os demais componentes do deficit em conta-corrente.
Essa é a cara oculta da atual euforia com o crescimento puxado somente pelo consumo do governo e das pessoas, com baixa poupança e pouco investimento. Cada vez se depende mais de recursos de fora para cobrir o buraco, e a desindustrialização precoce entra no segundo estágio de agravamento. No primeiro, as importações substituem os componentes locais, mas o produto continua a ser montado no Brasil; no segundo, importa-se o produto pronto e as indústrias se tornam meras distribuidoras e prestadoras de assistência.
A situação tende a piorar com as elevações de juro que o Banco Central terá de realizar para segurar o superaquecimento do consumo. As previsões de que no fim do ano o dólar se aproxime de R$ 1,60 ou menos vão sacrificar ainda mais os manufaturados. Até agora a valorização dos primários pela demanda da China tem atenuado a deterioração do comércio exterior. É um erro, porém, imaginar que as commodities aguentam qualquer valorização da moeda.
Tenho idade bastante para me lembrar do tempo em que quase todos os produtos primários brasileiros eram gravosos, isto é, seu custo de produção superava, devido ao câmbio, o preço internacional.
Quando as cotações também caem, como sucede no momento com muitos produtos agrícolas, a renda do campo sofre duplo golpe: preço e câmbio.
De onde poderá vir o socorro às contas externas se o panorama negativo se acentuar, como vem acontecendo há anos? Do petróleo? É o que já ocorre, como mostra Raquel Landim em perceptivo comentário em "O Estado de S. Paulo" (4/5/10).
Nele se aprende que o petróleo passou a ser o principal item das exportações, quase 10% do total! Sem ele, as vendas externas cresceram apenas 16%, agravando o descompasso com o aumento das importações.
Está aí um bom tema para o debate eleitoral. Em vez da discussão pueril sobre qual governo foi melhor, por que não debater como evitar que o Brasil vire uma grande Venezuela, onde 96% das exportações vêm das commodities? Sem mexer no câmbio, como melhorar a competitividade? Com esses juros? Com a infraestrutura em pedaços? Com carga tributária o dobro da da China? Com a redução da semana de trabalho?
RUBENS RICUPERO, 73, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).
Thursday, January 21, 2010
TENDENCIAS BRASIL 2010 - OPTIMISMO EN LA ECONOMIA
Tendências 2010: IDEIAS
No Brasil, 2010 será marcado pelo otimismo na economia e pela expectativa em relação à eleição presidencial. No mundo, a China seguirá crescendo como potência econômica e política -- como provou em Copenhague.
BRASILUm ano decisivo para o país-- André Lahóz
É um ciclo que se encerra. O oitavo e derradeiro ano sob a batuta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá início à frenética corrida pela sucessão -- e, para usar a cruel imagem sobre os costumes de Brasília em fins de mandato, nem mesmo a incrível popularidade de Lula deverá impedir que o café que lhe será servido em 2010 vá gradualmente esfriando com o passar do tempo. Enquanto isso, a cada mês deve aumentar a bajulação aos postulantes mais competitivos na disputa pelo primeiro cargo da nação. Nada a estranhar. É da própria natureza da política antecipar o deslocamento do poder. O que há de notável no ano que se inicia é a percepção generalizada de que, sejam quais forem as escolhas do eleitorado, a vida no futuro será muito parecida com a de hoje. Contratos serão respeitados. A moeda será preservada. As empresas seguirão produzindo -- eis o cenário com que trabalham dez entre dez especialistas em finanças internacionais. Mais do que uma aposta puramente econômica, eles confiam num salto qualitativo da sociedade brasileira. Ao conseguir descolar os ambientes da política e da economia, o Brasil tornou-se bem mais parecido com países em estágio de desenvolvimento muito superior. Num mundo que ainda lambe as feridas da crise financeira, oferecemos uma combinação irresistível de estabilidade com crescimento num ambiente de democracia plena.
Como deve evoluir a economia brasileira daqui para a frente? Todos os prognósticos indicam um ano próspero -- as estimativas são de crescimento forte, um dos mais robustos dos últimos tempos. Ao longo de 2009, empresas dos mais diferentes setores ajustaram para baixo a produção na tentativa de desovar estoques acumulados após a eclosão da crise financeira. O corte de produção cobrou seu preço -- o PIB chegou a cair em dois trimestres e deve fechar o ano com crescimento nulo. O lado bom dessa história é que o consumo interno se recuperou antes do que muitos imaginavam -- ao fim e ao cabo, 2009 acabou melhor do que se acreditava. O ano de 2010, portanto, começa com uma combinação promissora: poucos estoques e muita demanda. É sinônimo de produção em alta. As empresas devem operar em ritmo bem acima do normal para essa época do ano. E isso estimula o emprego e o investimento.
Também deve aumentar a efervescência no meio empresarial. Nesse sentido, a criação de um gigante no varejo englobando as lojas de Pão de Açúcar e Casas Bahia pode ser vista como um indício do momento atual do mercado. As operações de fusões e aquisições, que saltaram de 10 bilhões de dólares em 2002 para 95 bilhões em 2008, despencaram em 2009 -- de janeiro a novembro o volume foi de 54 bilhões. Agora, a expectativa é de um novo crescimento, ainda que não se volte ao patamar recorde de 2008. Também devem ser retomados os negócios no mercado de capitais. Os IPOs e as ofertas de ações em bolsa, que somaram pouco mais de 3 bilhões de dólares em 2004, chegaram a 35 bilhões em 2007. O volume caiu para cerca de 20 bilhões de dólares em 2009 -- e executivos de mercado esperam um crescimento de até 40% em 2010. Alguns setores devem ser particularmente beneficiados com o reaquecimento da economia -- com destaque para o de petróleo e gás. O Brasil já começa a ser incluído nas listas dos países petroleiros mais promissores, a ponto de frequentar, ao lado de Rússia, Iraque, Nigéria e Cazaquistão, o recém-criado acrônimo Brink, que reúne as nações onde se espera produção crescente nos próximos anos.
Todas essas projeções indicam que, ressalvado o aspecto inerentemente imprevisível das atividades humanas, 2010 é um ano considerado ganho de antemão pelos principais analistas da cena econômica. O risco, aliás, são os problemas advindos do próprio sucesso. Por todos os ângulos, o que se vê são forças estimulando a economia. O governo aumentou os gastos logo após a crise -- e essa despesa continua crescendo. O consumo das famílias e das empresas está em forte expansão. O investimento, que despencou em 2009, deve pelo menos voltar ao patamar pré-crise. O mundo continua querendo os produtos brasileiros. Se nada for feito, o país corre o risco de transitar diretamente para um cenário de superaquecimento econômico -- o que leva muitos analistas a prever altas de juro, ainda que moderadas, nos meses à frente. De certa forma, o bom momento do Brasil deve explicitar problemas históricos que não foram sanados -- a baixa poupança, o estado deplorável da infraestrutura, a falta de mão de obra qualificada para sustentar o crescimento. Um novo ciclo político está prestes a ser inaugurado, com a saída de cena -- talvez momentânea -- do presidente Lula. Será preciso muito trabalho de seu sucessor para manter o país no patamar recém-conquistado e, esperamos, alçá-lo ainda mais.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Amatemática está se tornando cada vez mais difundida na economia. Para que fique registrado: na hora certa, entre adultos e de comum acordo, eu também uso matemática. Há boas e más razões para empregá-la a serviço da economia. Só que até agora as más prevaleceram. Isso não teria muita importância se os formuladores de políticas não levassem a economia tão a sério. Quase nenhum deles liga para loucuras da teoria literária, por exemplo. Mas a economia tem importância e, nas fronteiras da disciplina, uma mudança sutil mas profunda está ocorrendo. A economia está começando a se tornar mais realista, enraizada em instituições, em história, no mundo real, e, por conseguinte, mais útil. Foi assim, aliás, que a economia começou. Na época ela não era chamada de "economia", mas de "economia política", simbolizando o fato de que economias não existem independentemente de sistemas e instituições políticos.
Adam Smith fundou, sozinho, a disciplina de economia há cerca de 200 anos, e sua influência é grande até os dias de hoje. Mas seu livro seminal, A Riqueza das Nações, não contém nenhuma equação. Em vez disso, Smith emprega argumentos cuidadosamente construídos, apoiados numa profusão de evidências históricas. O corretor de ações inglês David Ricardo, autor de Princípios da Economia Política e Tributação (1817), é menos conhecido, mas a teoria econômica- padrão de comércio ainda se baseia em sua obra. Mais de um século depois, duas figuras de extremos opostos do espectro político fizeram contribuições de largo alcance à economia. John Maynard Keynes estudou matemática em Cambridge e depois passou para a economia. Friedrick Hayek, a inspiração intelectual para o thatcherismo, tinha insights profundos em psicologia e também em economia. Ricardo, Keynes, Hayek e uma série de outras figuras-chave evitaram deliberadamente a matemática. Eles preferiram usar argumentos ponderados respaldados em evidências.
Como foi, então, que a matemática se tornou tão presente na economia, quando tanta coisa foi alcançada sem ela? A pior razão é que o emprego da matemática faz com que os economistas se sintam como verdadeiros cientistas. Eles têm "inveja da física". Os físicos usam a matemática (tente fazer física quântica só com palavras), e são cientistas de verdade, que realmente explicaram como uma porção de coisas funciona. Portanto, se usarmos a matemática, isso nos fará verdadeiros cientistas, não é? Bem, o erro lógico desta última frase é bastante óbvio. Mas ele não impede a satisfação íntima que a maioria dos economistas sente quando cobre a página de símbolos matemáticos.
Há uma razão mais séria e mais danosa para a matemática, ao menos um tipo particular de matemática, ser usada em economia. Ela está inextricavelmente ligada ao conceito de "homem econômico". A economia é basicamente uma teoria sobre o comportamento dos indivíduos. E a história- padrão não só supõe que os indivíduos são movidos pelo interesse próprio, mas que eles se comportam como algum tipo de supercomputador -- sempre recolhendo cada pedaço de informação relevante para uma decisão. Esses indivíduos tomam então a melhor decisão possível com base nas opções disponíveis. Não apenas uma boa decisão, mas a melhor. Ou, como economistas gostam de dizer, ótima.
Essa ainda é a base para o ensino de economia na universidade. Mas, paradoxalmente, foi precisamente o emprego da matemática na economia que solapou essa visão do mundo. É também uma razão por que a disciplina está avançando dramaticamente. A matemática pode ser muito útil em economia desde que a pensemos como uma simples ferramenta entre muitas. Ela é uma ferramenta que pode nos ajudar no pensamento lógico. É como outra linguagem -- ela pode nos ajudar a encontrar nosso rumo.
Mas pioneiros como os vencedores do Nobel de 2001 George Akerlof e Joseph Stiglitz avançaram o tema nos anos 70. Eles perceberam que algo mais era necessário, por isso abandonaram a ideia de que as pessoas têm uma informação perfeita quando tomam decisões. Eles desenvolveram o conceito de "racionalidade limitada": embora possamos tentar tomar a melhor decisão, podemos não conseguir em razão da falta de informações vitais. Assim, num mundo de racionalidade limitada, as pessoas que se comprazem em comida vagabunda ou fumam pesadamente não são vistas necessariamente como tomando a melhor decisão possível para elas. O trabalho de Akerlof e Stiglitz representou um passo adiante enorme para tornar a economia mais realista.
Daniel Kahneman e Vernon Smith, vencedores do Nobel de 2002, deram passos ainda mais largos. Eles entraram efetivamente no mundo e conduziram experimentos para ver como as pessoas de fato se comportam. Observando e deduzindo, como cientistas de verdade! Descobriram que, na maior parte do tempo, as pessoas não se comportam como o homem econômico. Em sua palestra na cerimônia do Nobel, Kahneman afirmou: "A característica central de agentes (pessoas) não é que eles raciocinam mal, mas agem intuitivamente com frequência. E o comportamento desses agentes não é guiado pelo que eles são capazes de computar, mas pelo que enxergam em dado momento".
Em outras palavras, o conceito de um homem econômico racional, calculador, está sendo abandonado. A teoria do homem econômico postula que as pessoas têm todas as informações relevantes para tomar a melhor decisão. Nessa nova abordagem, as pessoas têm -- na melhor hipótese -- uma informação imperfeita. Elas seguem aos trambolhões, tentando tomar decisões racionais, às vezes conseguindo -- mas, com frequência, falhando. As novas abordagens que se desenvolveram para substituir o homem econômico, talvez surpreendentemente, tornaram a economia muito mais dura. Em vez de apenas manipular algumas equações, nós precisamos pensar nas regras de comportamento relevantes. E precisamos recuperar a importância de instituições e da história. Em suma, temos de recuperar a ideia de economia política numa roupagem completamente moderna. Friederick Hayek sofre a desconfiança de muitos, mas há uma verdade profunda em sua observação: "Um economista que é apenas um economista não pode ser um bom economista".
Tudo isso deixa a economia mais humilde. Em vez de pretender passar por uma teoria de comportamento completamente geral -- aplicável a todas as pessoas em todos os tempos e lugares --, a economia é agora muito menos pomposa. Mas, em última instância, essas mudanças servirão para tornar a disciplina mais realista. E potencialmente mais poderosa como uma força para ajudar a compreender e melhorar a condição humana.
A China sob os holofotes-- Ana Luiza Herzog, de Copenhague
0s estudiosos das relações internacionais já soltaram um veredito: 2009 foi mesmo o ano do G20 -- grupo que reúne os países ricos do mundo e os emergentes, como Brasil, China e Índia. Isso não significa, porém, que é essa a configuração de poder global que deverá se manter em 2010 e nos anos vindouros. Tudo indica que, no futuro próximo, as aspirações do planeta estarão sob o jugo não de um grupo de nações, mas do G2: Estados Unidos e China. A prova mais recente disso foi dada no apagar das luzes de 2009, durante as duas semanas da conferência da ONU sobre o clima, realizada em Copenhague. O evento na capital dinamarquesa reuniu cerca de 40 000 pessoas e mais de 120 chefes de Estado e governo. A despeito dessa diversidade de lideranças, durante todo o tempo, as atenções estiveram voltadas sobretudo para os movimentos desses dois países. Afinal, qualquer plano de combate ao aquecimento global torna-se vazio se as duas maiores economias do planeta -- e também as maiores emissoras de gases causadores do efeito estufa -- não quiserem participar.
Durante as duas semanas de duração da COP15, Estados Unidos e China estiveram no centro das discussões o tempo todo, como era esperado. Mas foi a firmeza dos negociadores chineses o que deixou surpresos muitos dos participantes e observadores da reunião. A China, que em 2010 deve tornar-se a segunda maior economia do mundo (e que já é a maior emissora de CO2 do planeta, em termos absolutos), decidiu assumir de vez seu papel de protagonista no cenário da política internacional. Isso começou a ficar claro logo no início da conferência. Desde os primeiros dias, a delegação chinesa se apresentou como a voz do G77, como é conhecido o grupo de cerca de 150 países pobres e emergentes. Os negociadores do país adotaram com convicção o discurso de defesa dos fracos e oprimidos. Os chineses deixaram claro que o preço do combate ao aquecimento global não pode significar a criação de entraves ao desenvolvimento econômico desses países.
Também não foi possível demover o país da oposição a um sistema mundial de verificação do cumprimento das metas, uma das exigências-chave feitas pelo presidente americano, Barack Obama, em sua passagem no dia final da conferência. O discurso americano se apoiava na ideia da prestação de contas. Mas a leitura dos especialistas era diferente. Os Estados Unidos não estão preocupados com o que farão brasileiros, indonésios ou indianos. "A grande questão é a China", diz Nathan E. Hultman, professor da escola de políticas públicas da Universidade de Maryland e membro da Brookings Institution, um renomado instituto de pesquisa americano. "Obama precisa poder dizer aos cidadãos do país, com convicção, que a economia chinesa também está fazendo sacrifícios. Caso contrário, nada feito." Essa queda de braço observada pelo mundo todo, e que muitos acreditam ser um dos principais motivos para a falta do acordo que se esperava de Copenhague, não deixa dúvidas sobre o novo equilíbrio de forças neste começo de milênio.
Não é de hoje que há boas justificativas para o medo americano. Nenhum outro país nutre uma gana de crescer tão grande quanto a China. O país já tem 650 milhões de aparelhos celulares, mais que o dobro que toda a população americana. Passou à frente dos Estados Unidos no mercado que, durante um século, foi sinônimo do seu dinamismo: o automobilístico. A máquina exportadora chinesa permitiu o acúmulo de mais de 2 trilhões de dólares em reservas internacionais. A ditadura asiática é hoje o principal credor dos Estados Unidos. Agora, diante do imperativo de que o mundo se converta à economia de baixo carbono, há prenúncios de que pode ter chegado a hora de a China assumir de vez a dianteira. O país decidiu que não só vai esverdear sua matriz energética -- ainda movida a carvão mineral e, por isso, predominantemente suja --, como vai se tornar o maior exportador de tecnologias limpas do mundo. Na maioria dos países costuma haver um espaço de tempo razoável entre a tomada de uma decisão e sua execução. Na China comunista, esse intervalo é bem mais curto. Há cinco anos, 80% das turbinas eólicas instaladas no país eram produzidas no exterior. Hoje, os fabricantes nacionais já respondem por 75% dessa demanda.
Ao menos publicamente, os Estados Unidos e, sobretudo, a China, rejeitam a ideia de um mundo regido pelo G2. Os chineses afirmam não ter a pretensão de reformar o mundo ou se meter nos problemas alheios. O que os chineses, porém, não negam, é que todas as suas ações são guiadas por um princípio: o de fazer crescer o PIB. E a natureza desse pragmatismo basta para que, cada vez mais daqui para a frente, a exemplo do que ocorreu em Copenhague, a solução para qualquer dilema global passe pelo delicado balé entre esses dois países.
No Brasil, 2010 será marcado pelo otimismo na economia e pela expectativa em relação à eleição presidencial. No mundo, a China seguirá crescendo como potência econômica e política -- como provou em Copenhague.
BRASILUm ano decisivo para o país-- André Lahóz
É um ciclo que se encerra. O oitavo e derradeiro ano sob a batuta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá início à frenética corrida pela sucessão -- e, para usar a cruel imagem sobre os costumes de Brasília em fins de mandato, nem mesmo a incrível popularidade de Lula deverá impedir que o café que lhe será servido em 2010 vá gradualmente esfriando com o passar do tempo. Enquanto isso, a cada mês deve aumentar a bajulação aos postulantes mais competitivos na disputa pelo primeiro cargo da nação. Nada a estranhar. É da própria natureza da política antecipar o deslocamento do poder. O que há de notável no ano que se inicia é a percepção generalizada de que, sejam quais forem as escolhas do eleitorado, a vida no futuro será muito parecida com a de hoje. Contratos serão respeitados. A moeda será preservada. As empresas seguirão produzindo -- eis o cenário com que trabalham dez entre dez especialistas em finanças internacionais. Mais do que uma aposta puramente econômica, eles confiam num salto qualitativo da sociedade brasileira. Ao conseguir descolar os ambientes da política e da economia, o Brasil tornou-se bem mais parecido com países em estágio de desenvolvimento muito superior. Num mundo que ainda lambe as feridas da crise financeira, oferecemos uma combinação irresistível de estabilidade com crescimento num ambiente de democracia plena.
Como deve evoluir a economia brasileira daqui para a frente? Todos os prognósticos indicam um ano próspero -- as estimativas são de crescimento forte, um dos mais robustos dos últimos tempos. Ao longo de 2009, empresas dos mais diferentes setores ajustaram para baixo a produção na tentativa de desovar estoques acumulados após a eclosão da crise financeira. O corte de produção cobrou seu preço -- o PIB chegou a cair em dois trimestres e deve fechar o ano com crescimento nulo. O lado bom dessa história é que o consumo interno se recuperou antes do que muitos imaginavam -- ao fim e ao cabo, 2009 acabou melhor do que se acreditava. O ano de 2010, portanto, começa com uma combinação promissora: poucos estoques e muita demanda. É sinônimo de produção em alta. As empresas devem operar em ritmo bem acima do normal para essa época do ano. E isso estimula o emprego e o investimento.
Também deve aumentar a efervescência no meio empresarial. Nesse sentido, a criação de um gigante no varejo englobando as lojas de Pão de Açúcar e Casas Bahia pode ser vista como um indício do momento atual do mercado. As operações de fusões e aquisições, que saltaram de 10 bilhões de dólares em 2002 para 95 bilhões em 2008, despencaram em 2009 -- de janeiro a novembro o volume foi de 54 bilhões. Agora, a expectativa é de um novo crescimento, ainda que não se volte ao patamar recorde de 2008. Também devem ser retomados os negócios no mercado de capitais. Os IPOs e as ofertas de ações em bolsa, que somaram pouco mais de 3 bilhões de dólares em 2004, chegaram a 35 bilhões em 2007. O volume caiu para cerca de 20 bilhões de dólares em 2009 -- e executivos de mercado esperam um crescimento de até 40% em 2010. Alguns setores devem ser particularmente beneficiados com o reaquecimento da economia -- com destaque para o de petróleo e gás. O Brasil já começa a ser incluído nas listas dos países petroleiros mais promissores, a ponto de frequentar, ao lado de Rússia, Iraque, Nigéria e Cazaquistão, o recém-criado acrônimo Brink, que reúne as nações onde se espera produção crescente nos próximos anos.
Todas essas projeções indicam que, ressalvado o aspecto inerentemente imprevisível das atividades humanas, 2010 é um ano considerado ganho de antemão pelos principais analistas da cena econômica. O risco, aliás, são os problemas advindos do próprio sucesso. Por todos os ângulos, o que se vê são forças estimulando a economia. O governo aumentou os gastos logo após a crise -- e essa despesa continua crescendo. O consumo das famílias e das empresas está em forte expansão. O investimento, que despencou em 2009, deve pelo menos voltar ao patamar pré-crise. O mundo continua querendo os produtos brasileiros. Se nada for feito, o país corre o risco de transitar diretamente para um cenário de superaquecimento econômico -- o que leva muitos analistas a prever altas de juro, ainda que moderadas, nos meses à frente. De certa forma, o bom momento do Brasil deve explicitar problemas históricos que não foram sanados -- a baixa poupança, o estado deplorável da infraestrutura, a falta de mão de obra qualificada para sustentar o crescimento. Um novo ciclo político está prestes a ser inaugurado, com a saída de cena -- talvez momentânea -- do presidente Lula. Será preciso muito trabalho de seu sucessor para manter o país no patamar recém-conquistado e, esperamos, alçá-lo ainda mais.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Empate por zero a zero não é resultado que a torcida brasileira goste de comemorar. Mas, no campo da economia, o fato de o Brasil ter atravessado um ano de turbulência financeira global sem crescimento virou motivo de celebração. Afinal, o desempenho é notavelmente melhor que o conseguido em confusões passadas e também superior ao de muitos outros países, em particular os desenvolvidos. Melhor ainda, os indicadores mostram que estamos a caminho de marcar uma goleada em 2010. Na busca das razões de nosso relativo sucesso em 2009, é curioso notar que itens normalmente associados à lista de problemas nacionais -- gigantismo do governo, voluntarismo dos bancos oficiais, taxas de juro nas alturas, baixo volume de crédito, baixa participação do setor externo na economia -- de repente mudaram de coluna e passaram a ser incluídos nas soluções. Nada explicita melhor a reviravolta no terreno das ideias econômicas do que o debate sobre o Estado. Hoje é consenso que o bom resultado do Brasil em 2009 deve-se em parte às ações do Estado, seja diretamente, seja por meio de seus bancos. Também foi decisiva a constatação de que os brasileiros estavam com suas contas pessoais relativamente em ordem -- a anos-luz de distância do imbróglio do subprime americano. O equilíbrio não se deve à frugalidade dos hábitos, e sim ao fato de que o crédito no Brasil há muito tempo tem um custo exorbitante e é escasso. Isso mantém consumidores e empresas relativamente mais cautelosos quanto ao uso de dinheiro alheio. Aqui, ao contrário dos países mais avançados, a preferência é por investir menos, mas com dinheiro próprio. É uma estratégia que restringe o crescimento -- mas que, na hora do aperto, tornou-se um trunfo. Também é reduzida a exposição do país aos riscos do comércio exterior. Como o mercado brasileiro ainda é relativamente protegido, a soma das exportações e importações representa menos de um quinto do PIB -- em países como a Coreia é da ordem de 90%.
Será que os problemas de antes realmente viraram solução? Em meio à euforia das boas notícias econômicas, é bom tomar cuidado com algumas conclusões tortuosas -- ou no mínimo apressadas. Uma coisa é enfrentar uma crise. Outra, bem diferente, é construir as bases de uma economia moderna. Violar essa linha de raciocínio leva à conclusão de que traços que foram qualidades na crise merecem ser reforçados agora. Aí é que mora o perigo. "É óbvio que o setor público ajudou, mas essa visão glorifica problemas nossos", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. "Se colocarmos um gordo e um magro em situação de inanição, não há dúvida de que o sujeito mais robusto terá mais chance de sobreviver. Nem por isso algum médico recomendaria ficar gordo para se prevenir de uma morte por falta de comida." Se a ação do governo funcionou nas circunstâncias atuais, também é fato que, antes, atrapalhou muito -- e continuará a fazê-lo no futuro. O país não estaria melhor se tivesse crescido com mais vigor no passado, o que seria possível se empresas e trabalhadores não fossem tão sobrecarregados pelo peso estatal?
Mais uma conclusão errada a ser evitada é a de que a abertura da economia ao exterior é um mal. "Um mercado fechado é uma faca de dois gumes", afirma o economista inglês John Williamson, criador do termo Consenso de Washington para batizar o conjunto de medidas de estabilização recomendadas a países da América Latina. "O país fica menos propenso a sofrer impactos de uma crise externa, mas tem dificuldade de se aproveitar dos momentos bons." Isso já ficou patente com a capacidade de crescer que as economias mais abertas da Ásia demonstraram. O fato de agora, por um ou dois anos, sofrerem mais que o Brasil, não justificaria jogar suas políticas vencedoras por décadas na lata de lixo. Ter um mercado interno forte -- este sim um atributo do Brasil que fez diferença e vale ser estimulado -- é uma coisa. Dar as costas para o mundo é outra, bem diferente. Nesse aspecto, como em outros, é bom ter cuidado para não tirar conclusões erradas.
Amatemática está se tornando cada vez mais difundida na economia. Para que fique registrado: na hora certa, entre adultos e de comum acordo, eu também uso matemática. Há boas e más razões para empregá-la a serviço da economia. Só que até agora as más prevaleceram. Isso não teria muita importância se os formuladores de políticas não levassem a economia tão a sério. Quase nenhum deles liga para loucuras da teoria literária, por exemplo. Mas a economia tem importância e, nas fronteiras da disciplina, uma mudança sutil mas profunda está ocorrendo. A economia está começando a se tornar mais realista, enraizada em instituições, em história, no mundo real, e, por conseguinte, mais útil. Foi assim, aliás, que a economia começou. Na época ela não era chamada de "economia", mas de "economia política", simbolizando o fato de que economias não existem independentemente de sistemas e instituições políticos.
Adam Smith fundou, sozinho, a disciplina de economia há cerca de 200 anos, e sua influência é grande até os dias de hoje. Mas seu livro seminal, A Riqueza das Nações, não contém nenhuma equação. Em vez disso, Smith emprega argumentos cuidadosamente construídos, apoiados numa profusão de evidências históricas. O corretor de ações inglês David Ricardo, autor de Princípios da Economia Política e Tributação (1817), é menos conhecido, mas a teoria econômica- padrão de comércio ainda se baseia em sua obra. Mais de um século depois, duas figuras de extremos opostos do espectro político fizeram contribuições de largo alcance à economia. John Maynard Keynes estudou matemática em Cambridge e depois passou para a economia. Friedrick Hayek, a inspiração intelectual para o thatcherismo, tinha insights profundos em psicologia e também em economia. Ricardo, Keynes, Hayek e uma série de outras figuras-chave evitaram deliberadamente a matemática. Eles preferiram usar argumentos ponderados respaldados em evidências.
Como foi, então, que a matemática se tornou tão presente na economia, quando tanta coisa foi alcançada sem ela? A pior razão é que o emprego da matemática faz com que os economistas se sintam como verdadeiros cientistas. Eles têm "inveja da física". Os físicos usam a matemática (tente fazer física quântica só com palavras), e são cientistas de verdade, que realmente explicaram como uma porção de coisas funciona. Portanto, se usarmos a matemática, isso nos fará verdadeiros cientistas, não é? Bem, o erro lógico desta última frase é bastante óbvio. Mas ele não impede a satisfação íntima que a maioria dos economistas sente quando cobre a página de símbolos matemáticos.
Há uma razão mais séria e mais danosa para a matemática, ao menos um tipo particular de matemática, ser usada em economia. Ela está inextricavelmente ligada ao conceito de "homem econômico". A economia é basicamente uma teoria sobre o comportamento dos indivíduos. E a história- padrão não só supõe que os indivíduos são movidos pelo interesse próprio, mas que eles se comportam como algum tipo de supercomputador -- sempre recolhendo cada pedaço de informação relevante para uma decisão. Esses indivíduos tomam então a melhor decisão possível com base nas opções disponíveis. Não apenas uma boa decisão, mas a melhor. Ou, como economistas gostam de dizer, ótima.
Essa ainda é a base para o ensino de economia na universidade. Mas, paradoxalmente, foi precisamente o emprego da matemática na economia que solapou essa visão do mundo. É também uma razão por que a disciplina está avançando dramaticamente. A matemática pode ser muito útil em economia desde que a pensemos como uma simples ferramenta entre muitas. Ela é uma ferramenta que pode nos ajudar no pensamento lógico. É como outra linguagem -- ela pode nos ajudar a encontrar nosso rumo.
Mas pioneiros como os vencedores do Nobel de 2001 George Akerlof e Joseph Stiglitz avançaram o tema nos anos 70. Eles perceberam que algo mais era necessário, por isso abandonaram a ideia de que as pessoas têm uma informação perfeita quando tomam decisões. Eles desenvolveram o conceito de "racionalidade limitada": embora possamos tentar tomar a melhor decisão, podemos não conseguir em razão da falta de informações vitais. Assim, num mundo de racionalidade limitada, as pessoas que se comprazem em comida vagabunda ou fumam pesadamente não são vistas necessariamente como tomando a melhor decisão possível para elas. O trabalho de Akerlof e Stiglitz representou um passo adiante enorme para tornar a economia mais realista.
Daniel Kahneman e Vernon Smith, vencedores do Nobel de 2002, deram passos ainda mais largos. Eles entraram efetivamente no mundo e conduziram experimentos para ver como as pessoas de fato se comportam. Observando e deduzindo, como cientistas de verdade! Descobriram que, na maior parte do tempo, as pessoas não se comportam como o homem econômico. Em sua palestra na cerimônia do Nobel, Kahneman afirmou: "A característica central de agentes (pessoas) não é que eles raciocinam mal, mas agem intuitivamente com frequência. E o comportamento desses agentes não é guiado pelo que eles são capazes de computar, mas pelo que enxergam em dado momento".
Em outras palavras, o conceito de um homem econômico racional, calculador, está sendo abandonado. A teoria do homem econômico postula que as pessoas têm todas as informações relevantes para tomar a melhor decisão. Nessa nova abordagem, as pessoas têm -- na melhor hipótese -- uma informação imperfeita. Elas seguem aos trambolhões, tentando tomar decisões racionais, às vezes conseguindo -- mas, com frequência, falhando. As novas abordagens que se desenvolveram para substituir o homem econômico, talvez surpreendentemente, tornaram a economia muito mais dura. Em vez de apenas manipular algumas equações, nós precisamos pensar nas regras de comportamento relevantes. E precisamos recuperar a importância de instituições e da história. Em suma, temos de recuperar a ideia de economia política numa roupagem completamente moderna. Friederick Hayek sofre a desconfiança de muitos, mas há uma verdade profunda em sua observação: "Um economista que é apenas um economista não pode ser um bom economista".
Tudo isso deixa a economia mais humilde. Em vez de pretender passar por uma teoria de comportamento completamente geral -- aplicável a todas as pessoas em todos os tempos e lugares --, a economia é agora muito menos pomposa. Mas, em última instância, essas mudanças servirão para tornar a disciplina mais realista. E potencialmente mais poderosa como uma força para ajudar a compreender e melhorar a condição humana.
A China sob os holofotes-- Ana Luiza Herzog, de Copenhague
0s estudiosos das relações internacionais já soltaram um veredito: 2009 foi mesmo o ano do G20 -- grupo que reúne os países ricos do mundo e os emergentes, como Brasil, China e Índia. Isso não significa, porém, que é essa a configuração de poder global que deverá se manter em 2010 e nos anos vindouros. Tudo indica que, no futuro próximo, as aspirações do planeta estarão sob o jugo não de um grupo de nações, mas do G2: Estados Unidos e China. A prova mais recente disso foi dada no apagar das luzes de 2009, durante as duas semanas da conferência da ONU sobre o clima, realizada em Copenhague. O evento na capital dinamarquesa reuniu cerca de 40 000 pessoas e mais de 120 chefes de Estado e governo. A despeito dessa diversidade de lideranças, durante todo o tempo, as atenções estiveram voltadas sobretudo para os movimentos desses dois países. Afinal, qualquer plano de combate ao aquecimento global torna-se vazio se as duas maiores economias do planeta -- e também as maiores emissoras de gases causadores do efeito estufa -- não quiserem participar.
Durante as duas semanas de duração da COP15, Estados Unidos e China estiveram no centro das discussões o tempo todo, como era esperado. Mas foi a firmeza dos negociadores chineses o que deixou surpresos muitos dos participantes e observadores da reunião. A China, que em 2010 deve tornar-se a segunda maior economia do mundo (e que já é a maior emissora de CO2 do planeta, em termos absolutos), decidiu assumir de vez seu papel de protagonista no cenário da política internacional. Isso começou a ficar claro logo no início da conferência. Desde os primeiros dias, a delegação chinesa se apresentou como a voz do G77, como é conhecido o grupo de cerca de 150 países pobres e emergentes. Os negociadores do país adotaram com convicção o discurso de defesa dos fracos e oprimidos. Os chineses deixaram claro que o preço do combate ao aquecimento global não pode significar a criação de entraves ao desenvolvimento econômico desses países.
Também não foi possível demover o país da oposição a um sistema mundial de verificação do cumprimento das metas, uma das exigências-chave feitas pelo presidente americano, Barack Obama, em sua passagem no dia final da conferência. O discurso americano se apoiava na ideia da prestação de contas. Mas a leitura dos especialistas era diferente. Os Estados Unidos não estão preocupados com o que farão brasileiros, indonésios ou indianos. "A grande questão é a China", diz Nathan E. Hultman, professor da escola de políticas públicas da Universidade de Maryland e membro da Brookings Institution, um renomado instituto de pesquisa americano. "Obama precisa poder dizer aos cidadãos do país, com convicção, que a economia chinesa também está fazendo sacrifícios. Caso contrário, nada feito." Essa queda de braço observada pelo mundo todo, e que muitos acreditam ser um dos principais motivos para a falta do acordo que se esperava de Copenhague, não deixa dúvidas sobre o novo equilíbrio de forças neste começo de milênio.
Não é de hoje que há boas justificativas para o medo americano. Nenhum outro país nutre uma gana de crescer tão grande quanto a China. O país já tem 650 milhões de aparelhos celulares, mais que o dobro que toda a população americana. Passou à frente dos Estados Unidos no mercado que, durante um século, foi sinônimo do seu dinamismo: o automobilístico. A máquina exportadora chinesa permitiu o acúmulo de mais de 2 trilhões de dólares em reservas internacionais. A ditadura asiática é hoje o principal credor dos Estados Unidos. Agora, diante do imperativo de que o mundo se converta à economia de baixo carbono, há prenúncios de que pode ter chegado a hora de a China assumir de vez a dianteira. O país decidiu que não só vai esverdear sua matriz energética -- ainda movida a carvão mineral e, por isso, predominantemente suja --, como vai se tornar o maior exportador de tecnologias limpas do mundo. Na maioria dos países costuma haver um espaço de tempo razoável entre a tomada de uma decisão e sua execução. Na China comunista, esse intervalo é bem mais curto. Há cinco anos, 80% das turbinas eólicas instaladas no país eram produzidas no exterior. Hoje, os fabricantes nacionais já respondem por 75% dessa demanda.
Ao menos publicamente, os Estados Unidos e, sobretudo, a China, rejeitam a ideia de um mundo regido pelo G2. Os chineses afirmam não ter a pretensão de reformar o mundo ou se meter nos problemas alheios. O que os chineses, porém, não negam, é que todas as suas ações são guiadas por um princípio: o de fazer crescer o PIB. E a natureza desse pragmatismo basta para que, cada vez mais daqui para a frente, a exemplo do que ocorreu em Copenhague, a solução para qualquer dilema global passe pelo delicado balé entre esses dois países.
Subscribe to:
Posts (Atom)